Medicina ( Prévia de "Veneno e Vacina")


 É a quinta vez que estou na procissão, quinta vez que desço pelas ruas de terra batida, ladeada por cercas de madeira. Tapetes de grama se estendem para além delas e, além deles: casas, lares.
Poucos caminham comigo mas muitos me acompanham. Sinto os olhares temerosos, entristecidos; ouço gritos de escárnio, censura. Não cabe a mim julgá-los, muito menos ser alvo de julgamento.
“Eu faço! E se não o fizesse, se arrependeriam!”, lhes disse não a muito.
É a quinta vez que estou nesta marcha fúnebre, puxo os arreios do cavalo, guiando o rumo ao Vale. Vejo os aldeãos em meu caminho mas meus olhos estão fechados. Vejo os perfeitamente, olhando de dentro de suas casas, vejo os escondendo-se de minha procissão, incapazes de escapar do repicar dos meus sinos, vejo aqueles que me desafiaram e eles também me acompanham.
 A descida é íngreme, irregular, e os cascos do cavalo patinam quando passamos pela entrada da vila, a carroça geme e range com os percalços. Meus ajudantes seguem de cabeça baixa, ignorando propositalmente os demais, cantando suas lamúrias baixinho. Eles precisam de mim, quem fará o que é preciso quando chegar minha vez? mas também, devo admitir, preciso deles. Seus olhos sem brilho, a pele escamosa, a  voz vacilante. Preciso vê-las, senti las, para ter forças, para fazer o que é preciso.
Passamos pelos portões, um dos guardas me saudou “SALVE SENHORA DO VALE, DESENCANTA MEU POVO!” e meu corpo inteiro se estremeceu.  A estrada não é boa fora da cidade, a trilha é chafurdada de lama e escura, mas a procissão segue seu rumo, descendo por um bosque claustrofóbico às margens do vilarejo para encontrar o Vale do Seco.  
A umidade aumenta e o ar se torna pesado, volto a ouvir o choro de Meliu. A pobrezinha está deitada na carroça, pálida como osso e fria ao toque. Lágrimas correm pelas bochechas e ela balbucia “ Baba...por favor,..baba…”
“ Quieta agora, minha criança. Já já estaremos no vale”
Eis que ao longe ouço um grito, uma bravata: “ CE MORRE HOJE, BRUXA!”
Um homem, espada em punho, correndo em nossa direção. Seus lábios tremem gritando `` MELIU!”. É o pai da criança.
 Meus ajudantes agem e o confronto dura pouco, são cinco contra um. O homem se feriu na disputa e tem sangue escorrendo de sua cabeça quando o amarram ao tronco de uma mangueira idosa.
-Tu sabes, digo a ele, é o único jeito..
-MELIU, NÃO..Leva a mim. ME LEVA, DEIXA MELIU
A garota balbucia mais alto, chora copiosamente, um ganido lamentável, tal qual bicho sofrendo vem da carroça, além da visão do homem.
Ele chora, esperneia, grita e me amaldiçoou enquanto a Marcha continua. Estamos tão perto, seus gritos serão companhia.
O Vale ao fim do bosque é escuro, a luz solar parece pular aquelas serras quase sem árvores. A encosta desce e termina num plano de terra rachada, seca. Vejo aqui e ali meus sinais, provas de que eu tenho tentado.
Ainda com os gritos de seu pai nos ouvidos, Meliu é descida da carroça e a maca, uma esteira improvisada com tecido de algodão e madeira pobre, disposta no chão craquelado.
Chegou a hora.
Minha voz troveja pelas encostas do vale, pelo bosque e provoca um grito de pavor tão intenso que todo o vilarejo, sem exceção, estremeceu ao ouvirem o pai de Meliu. Meus braços agridem o mundo e minha faca faz chover nessa terra seca.
"OUVE MEU PEDIDO, VOCÊS QUE SÃO MAIORES. MAIOR QUE GENTE GRANDE, DEUS! OUVE MEU PEDIDO, ACEITA MINHA OFERTA E APLACA A DOENÇA DESSA GENTE! DESENCANTA ESTE MUNDO! DESENCANTA ESTE MUNDO!"



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