Vingança


  Duas vozes sussurram dentro de um cômodo apertado com teto baixo. Uma espécie de armário para utensílios de limpeza. Tonéis vazios, alguns cabos de vassoura no chão e uma caixa de explosivos.
Uma voz grave, soturna. A outra, de tom mais agudo, soa como uma péssima imitação de voz infantil.
  Aquelas vozes e essa caixa de explosivos certamente não fazem parte da paisagem.
Deu um trabalhão da porra chegar ali. Sequestrou, amedrontou e até chegou a subornar. Tudo para
estar no lugar certo e na hora certa!
---Esses dentadas filhos da puta! Desgraçados vão pagar caro agora!! Tu vai ter tua vingança, chefe. Vou te servir esses puto
---(...).  

  Jonas, o “ chefe”,  ficou calado. Olhando o nada, pistola na mão, pensando nos eventos que o trouxeram até aquela porra de armário de lixo.
 “ Os Dentadas, meus inimigos naturais.”
 Matanças não eram estranhas mas as traições eram mais comuns.
Oh,sim.
Malditos ratos traiçoeiros.
  Ele entendia que, provavelmente, teria feito algo para irritá-los. 
Casualidades são o preço de qualquer conflito, entendia isso mas porra, tudo tem limite. Crueldade, selvageria essas porras pervertidas, isso já era demais para aguentar.
  Foi então que, ao encontrar sua família, em prantos agonizantes, crucificados no meio de seu apartamento, Jonas soube que era hora de atacar.
AMÉLIA! NÃO! DENTADAS, FORAM OS DENTADAS! CONTRA ATACAR, EU VOU ME VINGAR. FILHOS DA PUTA.
  Estava sozinho no meio da cidade, do barulho. Cacofonia agoniante de um gigante de tecnologia de ponta morrendo lentamente enquanto tenta alcançar uma tomada para salvar lhe a vida.
Jonas odeia o barulho da cidade.
  Assim, solitário e com dores de cabeça, Jonas deu início a sua cruzada de vingança.
Havia desistido do lado de fora de casa há tempos. “ Não consigo ouvir o que dizem”, justificou-se, na época, para seu chefe e para Amélia, sua esposa.
Oh Amélia. Tão compreensiva. Ela se irritou quando surgiram essas conversas sobre o Barulho mas, doce de pessoa que era, logo se reconciliaram. Ela lhe dava, lembrou, umas balinhas, comprimidos engraçados, misturados em açúcar depois que terminavam o prazer.
---“Mesmo chorosa, sempre os botava em minha boca.”
 Agora não tinha mais prazer ou Amélia, nem seus filhos.
Dentadas tinham lhe tirado tudo.
Só havia ele, a dor de cabeça e o Trovador.
---Você é um merdinha, Trovador...mas é o único que eu tenho. Você será recompensado por isso.
---Chefe, é nois, tu me achou e eu te achei e agora já tamo nessa. Bora cabar com essa porra. Falta pouco pra dar a hora, logo eles vão se reunir, tu sabe, como sempre fizeram
---Como sempre fizeram…
---Não tem como dar errado…
---Não tem como dar errado!!
 Trovador é o dono da voz mais esganiçada. Jonas achava curioso que uma voz tão irritante não piorava sua dor de cabeça. De fato, só notou alguma melhora em seu quadro quando o conheceu.
   Certa noite, dias depois da brutalidade e dias antes do Presente, Trovador bateu na porta enquanto  jantava em seu apartamento. Entre o chão coberto por farelos, dejetos, pedaços do forro do teto e os doces que Amélia tanto gostava e a visão das cruzes improvisadas diante a mesa de jantar, aquele apartamento não era mais uma casa, isso pareceu incomodar Trovador mas Jonas tratou de explicar rapidamente porque não havia descido sua família das cruzes:   “ Os gritos e o choro me deixam mais forte, mais forte para me vingar”.
 Logo se deram bem, como amigos que se reencontram e Jonas o recrutou para sua vingança.

  De volta ao presente, Jonas está impaciente. Ficar apertado naquele cubículo não era agradável, Trovador também não cheirava bem, piorando a situação.
Os minutos viram horas e enfim chega o momento determinado.  Do lado de fora do armário ecoam os sons de movimentação.
Eles chegaram.
Sabiam que chegaria pois é o horário que acabam suas reuniões enfadonhas, orgias ou sei lá mais o que fazem aí dentro.  Agora estavam saindo, todos passam pelo grande saguão e vão para seus veículos.
Se entrassem nos veículos, escapariam. Não podiam chegar aos veículos.
 Os sons já são bem audíveis, distinguíveis. Vozes humanas conversando, numerosos passos despercebidos da ameaça no armário de limpeza.

---Trovador, chegou a hora!!! Cata às bomba, é agora, é agora.
 Olhou para trás, a caminho de abandonar o esconderijo, para ver o parceiro seguindo o mas para sua surpresa, ninguém!
  Estava sozinho no armário! Ele, tonéis vazios, alguns cabos de vassouras quebrados no chão, uma caixa com explosivos o suficiente para desabar um prédio e uma pistola com duas balas.
---Aaaaaaaaarrghhhh desgraçado!!!!! O desgraçado me abandonou, me vendeu. Os dentada, os dentada compraram ele. Filho da putaa.
 Havia sido traído, de novo. Não poderia se abalar, porra!
Decidiu-se, o plano continua.
 Agarrou alguns explosivos, espalhou pelos bolsos que tinha( dois frontais e dois traseiros nas calças, um no peito da camisa e mais dois em cada lada nós compartimentos internos da jaqueta) e irrompeu pela porta, pistola empunhada.
---DENTADASFILHOSDAPUTAAAA!! Agora vocês me pagam!!!! Todo mundo pro chão, porra! Vou matar vocês.
  O saguão estava repleto de pessoas. A maioria vestida formalmente, pastas e paletós, uns chapéus e algumas fardas também. Os gritos chamaram atenção por alguns segundos mas foi a arma que realmente os conquistou.
Jona gesticulou freneticamente enquanto berrava ameaças e xingamentos
---Seus cuzões, sádicos do caralho, vou matar vocês. Aê, caralho, não se mexe!!
Um disparo.
  Uma mulher fardada, militar do Exército pelo visto, cai no chão com um buraco entre os olhos. Os outros se jogam ao chão, gritando. Um homem, grisalho, de paletó preto, joga sua pasta no chão e ergue as duas mãos.
---Jonas!!! JONAS,O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO??
---Vou explodir essa porra toda! Dentada,filho da puta. VOCÊ MATOU A AMÉLIA.
---Jonas, abaixa a arma. Vamos ligar pra Amélia, por favor cara. Lembra de mim!!!! Abaixa a arma jonas!

Sua mão livre busca uma bomba, a do bolso da camiseta, a aciona e arremessa na multidão. É simples: aperte, jogue e aguarde. 
   A explosão vem logo. O solavanco na terra, o estremecer da parede vêm junto do rugido terrível de explosão, a nuvem de poeira e destroços e o cheiro de incêndio.
---VOCÊS MATARAM O MUNDO, PORRA. LEVARAM O TROVADOR, MATARAM AMÉLIA.
 O homem que sabia seu nome. Jonas lembrou-se vagamente dele, a voz era familiar. Alguma ligação com as ameaças que havia sofrido mas isso pertencia ao passado. Quando ele era Jonas e era casado com Amélia, se vestia como eles e carregava, também, uma pasta. Passado.
 O êxtase da adrenalina e da vingança em execução elevam Jonas, nem parece se importar com o tremendo barulho ( isso realmente o incomodava bastante), com os gritos da pessoas, às sirenes, choro de criança. Estava pleno, de fato.
 Esticou a mão, o bolso traseiro direito da calça. Mais uma bomba. Sentiu a em sua mão, fria ao toque. Era agradável.
Sentiu também, ao mesmo tempo que ouviu, um disparo atravessar-lhe o braço esquerdo. Mais um, estilhaçando sua canela em alguns pedaços.
Bang bang bang
Na barriga, no joelho…
Bang, bang, bang.
Na altura do peito
Bang bang,
Na coxa esquerda…

Booom!!!!



“ Hoje a noite, um homem identificado por vizinhos como Jonas Euclides, realizou um dos piores atentados da história do nosso país. Com explosivos, Jonas provocou mais de 200 mortes confirmadas até o momento presente. Às equipes de resgate trabalham incessantemente no local a procura de sobreviventes que podem estar soterrados nós escombros, já que parte do saguão de entrada do prédio executivo Financial Tooth desabou na segunda explosão. Jonas é, também, suspeito de ter torturado e assassinado  sua família. Polícias encontraram sua esposa, Amélia Euclides, e os dois filhos do casal crucificados diante da mesa de jantar do apartamento,  onde, aparentemente, Jonas se enclausurou pelos últimos meses. Policiais receberam a denúncia ainda durante o atentado, quando um executivo chefe que estava no saguão ligou para o 190 e relatou o fato. Jonas foi diagnosticado com Síndrome do Psíquico Sensível meses atrás e perdeu seu emprego por Invalidez. O autor da denúncia, Alberto Dentada, era chefe de sua divisão na época(....)”

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