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Mostrando postagens de janeiro, 2019

Uma torre no topo duma colina

Uma torre no topo duma colina Foi construída sobre segredos, intenções ocultas. Uma modesta agulha de pedra esticando-se ao céu, acima de outros, acima de um povoado inteiro, seus vizinhos diretos. o vilarejo, tarde da noite como é agora, às pessoas estaria dormindo, perdidas em sonhos, foste este um dia normal. Na noite anterior, na hora da sopa, como se tomados por espíritos santos e infantis, todos no povoado caíram na risada. Gargalhadas nervosas que pareciam eternas. Madrugada a dentro, no primeiro quarto da Lua, a maioria estava caída no chão aos prantos, pensamentos terríveis de medo e fragilidade arrebatavam a mente das vítimas. O raiar do dia não trouxe melhora. Levantaram-se aos poucos, como se tímidos. e começaram a brigar um com outro. Um surto de fúria, uma verdadeira carnificina teve lugar ali e poucos restaram para ver o avanço da noite que se seguiu. O frio da madrugada trouxe aos poucos mais de 200 vivos clareza. Nenhuma possessão ou veneno inebriante agiu sob...

Medicina ( Prévia de "Veneno e Vacina")

 É a quinta vez que estou na procissão, quinta vez que desço pelas ruas de terra batida, ladeada por cercas de madeira. Tapetes de grama se estendem para além delas e, além deles: casas, lares. Poucos caminham comigo mas muitos me acompanham. Sinto os olhares temerosos, entristecidos; ouço gritos de escárnio, censura. Não cabe a mim julgá-los, muito menos ser alvo de julgamento. “Eu faço! E se não o fizesse, se arrependeriam!”, lhes disse não a muito. É a quinta vez que estou nesta marcha fúnebre, puxo os arreios do cavalo, guiando o rumo ao Vale. Vejo os aldeãos em meu caminho mas meus olhos estão fechados. Vejo os perfeitamente, olhando de dentro de suas casas, vejo os escondendo-se de minha procissão, incapazes de escapar do repicar dos meus sinos, vejo aqueles que me desafiaram e eles também me acompanham.  A descida é íngreme, irregular, e os cascos do cavalo patinam quando passamos pela entrada da vila, a carroça geme e range com os percalços. Meus ajud...

Vingança

  Duas vozes sussurram dentro de um cômodo apertado com teto baixo. Uma espécie de armário para utensílios de limpeza. Tonéis vazios, alguns cabos de vassoura no chão e uma caixa de explosivos. Uma voz grave, soturna. A outra, de tom mais agudo, soa como uma péssima imitação de voz infantil.   Aquelas vozes e essa caixa de explosivos certamente não fazem parte da paisagem. Deu um trabalhão da porra chegar ali. Sequestrou, amedrontou e até chegou a subornar. Tudo para estar no lugar certo e na hora certa! --- Esses dentadas filhos da puta! Desgraçados vão pagar caro agora!! Tu vai ter tua vingança, chefe. Vou te servir esses puto --- (...).     Jonas, o “ chefe”,  ficou calado. Olhando o nada, pistola na mão, pensando nos eventos que o trouxeram até aquela porra de armário de lixo.  “ Os Dentadas, meus inimigos naturais.”  Matanças não eram estranhas mas as traições eram mais comuns. Oh,sim. Malditos ratos traiçoeiros.   Ele entendi...

ESCRITA CRIATIVA

  Aquela terrível atmosfera de hospital: refletores de luz branca, azulejos e cerâmicas em tons azuis, corrompidos por conviverem com a sujeira do lugar. Acúmulo de poeira, sangue e algo que parecia um rastro de merda humana pelo chão. Jogado nesse mesmo chão estava um homem, diretamente abaixo de um alto falante na parede. Vestia um paletó já em trapos e carregava olheiras profundas. Seu rosto, oleoso e macilento, marcado por queimaduras retilíneas, arranhões.  O alto falante, não contente em quebrar só com a estética, rompeu o silêncio sepulcral do aposento com seu chiado característico. Uma voz feminina soou pelo quarto. --- Bom dia luz do dia! É hora.  Uma sirene tocou em alto volume. Norberto sabia que era hora de levantar.  Ergueu-se, trêmulo e trôpego, apoiando-se na parede. Sua voz saiu fraca, suplicante até --- Não, por favor… de novo não.  A sua frente, jogados no chão, alguns cadernos e muitas canetas esferográficas. --- Ora Norbertinho, voc...

Jardineiros da corrupção

Foram dias e dias de batalha intensa.   Muitos mortos do nosso lado mas também do inimigo. O pântano, antes deserto e dominado pela vida selvagem, se converteu em um cemitério a céu aberto. Corpos mutilados, seres humanos que levaram para o outro mundo suas expressões de absoluto terror ao lado de criaturas abomináveis, seres que se assemelham a morcegos gigantes, com dezenas de olhos na face.  Dias e dias de batalha, muitos mortos, centenas de humanos. As criaturas não nós damos o trabalho de contar, sempre haveria mais. Uma nova horda de tempos em tempos, nos levando ao limite, dia após dia.   Essa era a única certeza nessa floresta: O ataque viria. E assim vivemos por 3 ou 4 meses, amontoando nossos mortos e lutando para não ceder um centímetro sequer para essas abominações. Foi, então, com muito terror e paranoia que recebemos, no alvorecer de certo dia, uma calmaria, um cessar fogo.  O vigia, do alto de seu mastro, pronto para soar o sinal de batalha não ...